O passado já passou
Hoje eu não
vou escrever um poema ou algum pensamento sobre a vida, como no último texto.
Eu quero falar sobre um assunto que venho lendo bastante ultimamente e,
dialogando com algumas pessoas, muitas se identificaram com a questão a qual
quero relatar.
Eu quero
simplesmente discorrer sobre nosso amigo John. Eu não vou mencionar o sobrenome
dele para que não seja exposto (penso ser desnecessário) ainda mais; depois de
tudo que ele passou e ainda continua passando.
Nosso amigo
John é uma daquelas pessoas que sempre visa fazer toda e qualquer tarefa com
total perfeição. Claro, ele é um humano como outro qualquer, com muitos
defeitos, muitas indagações e sempre em busca de repostas e verdades - talvez
nem existentes. Ele não é uma pessoa de muita sorte também; precisa de muita
persistência para alcançar o que deseja, percorrendo muitos caminhos e
percalços. Nada lhe é dado com facilidade. Isso foi algo que sempre ocorreu em
sua vida.
Ele sempre enfrentou
grandes desafios e responsabilidades no passado. Sofreu constantes preconceitos
- por ser “apenas” um jovem - dentre pessoas muito mais velhas e com muita
experiência. Mas ele não desistiu, continuou e provou com suas ações e
resultados, ser um grande profissional. Ele recebeu merecidas promoções em
pouco tempo. Seria tão ruim assim? Aprendeu novos ofícios, trabalhou em funções
que em tempo algum havia trabalhado e desempenhou tarefas jamais feitas por
ele; mas as fez com grande excelência e perfeição, obtendo resultados de
sucesso. Não porque ele era melhor, mas porque ele é e era bastante dedicado em
tudo que fazia.
Vamos voltar
no tempo e relembrar o ano de 2002. John estava trabalhando em uma grande
empresa, a qual todas as pessoas amavam trabalhar e todos estavam felizes com
seus cargos, tarefas, atividades, etc. Para ele, era mais um emprego. Na
verdade, estava ainda no princípio, pois ele era novo na empresa. Ele havia
pensado muito antes de entrar naquela empresa e abrir mão de muitas coisas,
como por exemplo ficar longe da família para estar ali, naquele trabalho tão sonhado.
John chegou
ao local todo esperançoso. Seria um daqueles trabalhos em que se sentiria útil? Poderia fazer a diferença? Ele sabia que
podia fazer algo diferente e que seria reciproco. No início, tudo foi normal e
claro - o novato sempre precisa de relativa adaptação -; e ele estava achando
que tudo que estava acontecendo fazia parte da sua adaptação, e foi seguindo com
sua vida. Então passaram-se algumas semanas e nada acontecia. A monotonia
reinava soberana. Ele foi falar com o líder inúmeras vezes e sempre era visto
de forma estranha. Ele buscava simplesmente sentir-se útil, o que até o momento
não havia ocorrido.
Em considerável
ímpeto de coragem, ele também comunicou a todos, em certa reunião semanal de
projetos, que estava à disposição e, caso alguém precisasse de ajuda, ele
estaria disposto a ajudar. Seu próprio superior afirmou que confiaria a ele algumas
tarefas, já que estava precisando de ajuda. Mas nada aconteceu!
John sempre
se questionava: o que estaria acontecendo ali? O que estava fazendo? O problema
era ele? Inquieto, buscou ter nova conversa com o líder; novamente nada
aconteceu. Seu líder sequer respondia a seus e-mails e, quando procurado
pessoalmente, o tratava com desdém – diferentemente de como um verdadeiro líder
faria -, que deveria estar ali para apoiar, guiar e dar suporte. Seu próprio
comandante sempre dizia que aquele departamento deveria ser como irmãos e se
defenderem. Mas a realidade era totalmente diferente. Palavras, simples
palavras sem valor, que nunca foram cumpridas.
E John
seguiu por ali mais alguns meses para ver se algo mudaria. Ele não queria
aceitar a situação sem lutar, por puro comodismo; afinal tinha um trabalho e
salário. Ele não era rico, não estava rasgando dinheiro, mas essa situação já
havia começado a afetar negativamente sua saúde, com diversos sintomas
estranhos. A inutilidade, a certeza de que nada mudaria naquele ambiente (em
que pessoas, egoístas, estavam preocupadas simplesmente consigo mesmas) o
desanimava ainda mais.
Todavia, podemos voltar no momento em que
John foi avaliado pelo seu líder e demais “comandantes” da empresa. A mensagem
chegou em um e-mail, solicitando ter uma conversa com o gestor do departamento.
Enfim, reunião agendada. Para variar, o líder se atrasou e a reunião começou
mais de 30 minutos depois do combinado. A reunião foi tão martirizante e sem
lógica que John, desapontado, não conseguiu expressar com todas as palavras sua
profunda insatisfação. Apenas concordou com tudo para não ser julgado mais uma
vez erroneamente. Ele demorou algumas semanas - ou meses - para se recuperar da
destruição causada por tamanha expectativa. Ele acredita ser uma pessoa
arrojada, um profissional dedicado e com iniciativa. Com o tempo, ele passou a
imaginar que era o pior profissional do mundo e que nada mais feito até ali
valia a pena. Estava se sentindo um inútil, um antiprofissional. E ainda pior,
estava sendo avaliado pelos líderes como tal - estava sendo avaliado da mesma
forma como se sentia. O mundo os vê como realmente somos ou como nos sentimos?
E, como sabemos por sua história, era tudo o
contrário. Aquela empresa não estava vendo seu potencial, não estava dando a
devida valorização a aquele profissional, que sempre fora tão valorizado por
todos os lugares em que passou. Se ele não sabe lidar com criticas? Não veria
dessa forma, veria que era uma critica infundada, uma critica baseada em fatos
não existentes. Se ele não tinha desafios, responsabilidades, como seria
avaliado por isso?
E ainda mais; estava sendo criticado por ser
uma pessoa introvertida e que sua avaliação foi prejudicada por este fato. Não
era uma pessoa introvertida e sim comprometida. Ele não trabalhava num circo, sequer
era um ator ou apresentador. Era um profissional de uma área que não exigia
apresentações públicas. Durante anos, o sonho dele era trabalhar naquele
seguimento; mas, depois de tanta desilusão, chegou à conclusão de nunca mais querer
trabalhar naquele ramo. Aliás, ele decidiu que precisava de uma mudança e
voltaria a procurar emprego. O choque foi tão grande que pensou em mudar de
função, para que nada pudesse ligá-lo a aqueles momentos vividos naquele lugar.
Ele estava
disposto a dizer não. Não a aquela situação. Não a aqueles problemas. Não a
aquela humilhação desnecessária. Se ele era tão ruim para a empresa, porque ele
deveria estar ali? Nem ele e nem a empresa precisava daquilo. Ele ficou
imaginando - como ele passou por tantos lideres da empresa e nenhum constatou
que ele era tão ruim profissionalmente?
Você deve
estar pensando que ele está sendo muito dramático e deve ser mesmo péssimo
profissional, não é mesmo? Mas sabemos que algumas pessoas são mais sensíveis, outras
mais calculistas, outras chegam até a suportar humilhações, engolindo tudo sem
questionamentos e sequer sentem algo com tudo isso. Várias outras chegam a até
mesmo fazerem coisas inimagináveis por um emprego ou cargo, ou mesmo uma promoção.
John não era assim; ele não era um dramático, ele simplesmente sentia a vida de
forma diferente e queria estar envolvido, queria participar, queria fazer bem
feito. Ele queria sentir-se útil naquele mundo no qual ele havia entrado. Ele
não queria mais ir para o trabalho como se estivesse indo para a forca ou para
um funeral. Sua autoestima estava totalmente abalada. Ele não conseguia
progredir, ficou alimentando aquele sentimento de inutilidade e à espera de
alguma boa noticia. Então, depois de alguns meses ele recebeu uma notícia boa:
estava sendo contratado para outra vaga em outra empresa. Ele tinha ido a uma
entrevista e a empresa ficou impressionada com a experiência que ele havia
adquirido ao longo dos anos.
Então John
pensou: Puxa, não sou tão ruim assim. Consegui um novo trabalho. E por sinal um
excelente trabalho e com grandes desafios e responsabilidades pela frente.
Ele refletiu
sobre tudo que vivenciou naquele lugar e sobre o que precisaria mudar - todos nós
precisamos mudar alguma coisa. Mas ele nunca deixou de fazer algo que lhe foi
solicitado. Estava sempre disposto a ajudar, ainda que naquele local ele tenha
passado por momentos tão ruins. John tinha feito amigos, conheceu pessoas que
realmente valeram a pena e ele sentia por deixa-las para trás, mas sentia
profundamente a necessidade de mudança. Ele levaria aqueles amigos feitos ali
sempre no coração e na memória. Ele ainda sentia esperanças na humanidade.
E você deve
estar se preguntando; o que me importa essa historia do John?
Eu quero
deixar uma lição para você, meu caro leitor. Quero deixar registrado que, por
mais que falem ou tentem te desestimular, não desista! Talvez você esteja
vivendo uma situação ruim por estar no lugar errado e na hora errada, quem sabe
com pessoas erradas, líderes que são chamados como tal e ninguém sabe o motivo.
Talvez até no país errado. Nunca se sabe, não é?
Hoje o John está
em uma nova empresa, em uma nova cidade e morando perto da praia, com uma nova
vida. Ele não via luz qualquer durante o tempo de escuridão, mas estejamos
confiantes que sempre se tem uma esperança, mesmo que não a vejamos de forma
tão clara.
Desejo
sucesso a todos e esperanças de boas notícias!!!
